A dois dias do julgamento de Lula, evento reúne em Porto Alegre diversas lideranças mundiais em apoio ao ex-presidente. "Quando um dos nossos é atacado, todos nós somos", afirma Francisco Cafiero

“Eleição para ‘eles' é um dilema, isso não pode existir. Para eles que chegaram ao poder por um atalho, como ter eleições? Para eles, a saída então é inviabilizar o maior líder popular do Brasil, chamado Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmou Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, na abertura do encontro “Diálogos Internacionais sobre a democracia”, que reuniu lideranças políticas e sindicais da América Latina e Europa, nesta segunda-feira (22), em Porto Alegre, para debater o contexto e o significado do julgamento do ex-presidente Lula, marcado para quarta-feira (24).

Promovido pelas fundações Perseu Abramo e Maurício Grabois, o evento integra uma série de atividades promovidas na capital gaúcha nos dias que antecedem o julgamento do recurso do ex-presidente, na próxima quarta-feira (24), no Tribunal Regional Federal da 4ª da Região (TRF4).

Na análise de Rabelo, presidente da Fundação Maurício Grabois, o “dilema dos golpistas” cresce na medida em que o petista lidera todas as pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de outubro. “Por isso querem forjar uma condenação de Lula. Então, não se trata de salvar Lula e a esquerda, mas salvar a democracia desse país. É um momento decisivo”, afirmou.

Representando a fundação alemã Friedrich Ebert, Thomas Mans disse que muitos na Alemanha estão preocupados com a democracia brasileira e com o clima de ódio que vigora no país. “Parece que o ódio está acima dos argumentos no debate político”, avaliou.

Ao abordar a instrumentalização da acusação e da sentença contra Lula, Mans afirmou que a sensação é que os argumentos que ditam o processo jurídico não são “legais”, por isso, disse ter dúvida se ainda é possível haver um julgamento “justo e dentro do Estado de direito” do ex-presidente. Ainda segundo Mans, a ex-ministra da Justiça da Alemanha (1998-2002) Herta Däubler-Gmelin estudou o caso de Lula e concluiu ser um processo jurídico instrumentalizado para fins políticos, cuja sentença do juiz Sérgio Moro deveria ser rechaçada pelo TRF4.

Já Francisco Cafiero, vice-presidente da Conferência Permanente de Partidos Políticos da América Latina (Coppal), ponderou que a democracia está sendo “golpeada” em diversos países do continente e o Brasil é o “epicentro” deste processo. “Enfrentamos a dicotomia de defender o Estado de bem estar social ou deixar avançar a agenda do capital financeiro internacional.”

Assim como Cafiero, Marco Consolo, representante do Partido da Esquerda Europeia (PIE), entidade que reúne 32 partidos da Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal, entre outros, afirmou ter consciência da importância de defender a democracia tanto no Brasil como na Europa.

“Lá (na Europa) também sofremos o mesmo ataque. E aqui na América Latina estamos numa contra ofensiva das oligarquias contra os avanços sociais obtidos recentemente”, afirmou. Consolo ponderou que os atuais “golpes brancos” são diferentes dos golpes de outrora, e lembrou casos semelhantes ao do Brasil, ocorridos em Honduras, em 2009, e no Paraguai, em 2012.

“O julgamento de Lula é uma farsa, não encontro outra palavra. O objetivo é claro, é não permitir que Lula chegue nas eleições. E não é um objetivo apenas com o Brasil, mas é atacar a integração latino-americana e a criação dos Brics como possibilidade de fazer frente à liderança dos Estados Unidos”, afirmou Marco Consolo.

Segundo o italiano, os planos de ajuste fiscal e a política de austeridade imposta em diversos países europeus são semelhantes ao que agora acontece no Brasil, com ataques à previdência social pública e aos direitos trabalhistas. “Estamos na Europa sofrendo a mesma criminalização das lutas sociais.”

O secretário-geral da Confederação Sindical das Américas, Victor Baez, afirmou que em outros países acontecerá o mesmo que está ocorrendo agora aqui. “O Brasil foi uma potência regional que apresentou 'problemas' para o sistema, como a iniciativa dos Brics, a Unasul e o apoio à integração regional do continente”, disse.

“Lula é o símbolo. Qual é o outro grande líder de esquerda no mundo? Não tem. Ele não pode ser condenado, não apresentaram provas. Se for condenado, será a prova de que o capitalismo e a democracia são antagônicos”, concluiu.

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